removed: um retrato da solidão coletiva

inevitavelmente você já percebeu isso, mesmo se for o caso de você ser um desses aficionados por redes sociais: a solidão está em todos os lugares;

a mentira descarada de que a sociedade conectada é mais “feliz” é um duplo engano: primeiro, porque pressupõe que sem a conexão as pessoas são mais tristes; e segundo, porque concede à realidade digital uma posição de primazia em detrimento às interações no mundo real;

provas disso? analise o número de conhecidos seus que se “declararam” através de algum aplicativo de mensagem; compare o número de contatos nas suas redes sociais com o número de pessoas com quem você efetivamente conversa; procure os dados sobre pessoas viciadas em pornografia que simplesmente não conseguem mais manter relações sexuais sem assistir a um vídeo erótico primeiro;

a lista vai longe…

faço aqui um pequeno relato da minha curta experiência em redes sociais: iniciei tarde nela, pulando a primeira geração do msn e do orkut e indo direto para o facebook; fiquei mais ou menos três anos nela, num período conturbado cheio de “facebookcídios” motivados pela simples noção de que a ideia de “comunidade virtual” era uma farsa;

para viver na comunidade virtual, é preciso postar; logo, postar é viver! e sem postagens, para todos os efeitos, você está morto: e se efetivamente você estivesse morto dentro do seu quarto, seu corpo já estaria em elevado estado de putrefação quando as pessoas dessem por sua falta nas redes sociais – tamanha é a quantidade de informações à qual o usuário é exposto todos os dias!

conquistas na vida profissional e amorosa; sugestões de leitura; debates políticos acalorados; o interminável processo de venda de uma imagem de família de “comercial de margarina” (mesmo você sabendo que naquela família só dá B.O.), dentre outras agressões ao seu senso de amor próprio que te fazem questionar diariamente se você realmente é feliz;

assim, é fácil compreender o log off das redes sociais como um suicídio assistido de “menor grau de relevância”, uma vez que o que morre não é o corpo, mas o espírito (aqui compreendido no sentido da senciência humana); é até mais fácil aceitá-lo enquanto suicida, pois, numa abordagem mais intimista do chamado “facebookcídio”, não há a necessidade da dor física na passagem do estado de existência virtual para o estado de completa não existência;

pois é, sejam bem-vindos à era pós-digital:

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as fotos acima fazem parte do projeto “removed“, do fotógrafo eric pickersgill, que consiste em remover digitalmente os smartphones das mãos dos usuários em fotos em que o aparelho estava sendo utilizado;

nas fotos é possível ver a crueza da individualização da solidão coletiva, com casais conectados unicamente por um status nas redes sociais, mesas de jantar completamente abandonadas em detrimento ao ambiente virtual e encontros entre amigos completamente desperdiçados pela onipresença da comunidade virtual;

é assombroso perceber como o homem, mesmo em meio a 7 bilhões de outros seres humanos, e mesmo utilizando as redes sociais para aumentar o número de conexões com as pessoas, nunca esteve mais solitário do que hoje;

(e não: não quero parecer o biscoito especial do pacote, porque eu mesmo me incluo na lista de pessoas acometidas por esta sensação de solidão)

o trabalho de pickersgill me lembrou de um vídeo de uma banda chamada moby – e, embora eu não seja um fã ardoroso do som dos caras, tenho que tirar o chapéu para a animação do clipe, que traz uma mensagem pesada (embora beirando a caricatura) da sociedade conectada:

e você – também sente que as pessoas estão mais solitárias na era da conexão? já sentiu essa solidão? ou simplesmente acha que há um exagero no enfoque dado à questão toda? deixe seu relato nos comentários, vamos refletir!

estarei aqui com minha caneca de café em mãos pensando sobre o assunto também;

inmfc

2 comentários Adicione o seu

  1. Porigui disse:

    Legal. A música Carmen de Stromae também fala sobre isso.

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    1. Huahuahua, mó doido esse clipe! Não conhecia. No começo até lembra as partes musicais das animações Disney. Ainda faço um compilado só com animações fucked up assim um dia…

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