cultura de remakes: nuttelizarão até os trapalhões?

então você está lá passando o olho pelo twitter quando vê a foto de um grupo de cosplayers dos trapalhões e pensa “haha, legal!”…

… até você lembrar que, efetivamente, está para sair um remake – sim, um fucking remake! – de “os trapalhões”!

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cacilds, né mussum?

entendendo a história:

era a reta final da década de 60 quando “os trapalhões” teve seu primeiro episódio exibido, em 1969 – numa série que passou por vários modelos de exibição até ter seu último episódio rodado, já no ano de 1994;

o elenco original todos já estamos carecas de conhecer: didi era o retirante cearense que fazia o típico malandro que passava todo mundo para trás; zacarias era o mineirinho que possuía um comportamento mais infantilizado e medroso; mussum era o negro carioca vindo da favela, amante de uma boa cachaça e mulherengo nato; e dedé fazia o galã e cérebro do grupo, sendo o mais sério do quarteto;

então, com esta fórmula aparentemente simples, o grupo perdurou por mais de 30 anos na televisão e no cinema: era um humor escrachado, leve, mas que às vezes passeava pela comédia absurda do monty python com relativo sucesso;

entendendo os personagens:

como já dito, a graça de “os trapalhões” não estava em sua fórmula – mas sim na brilhante execução dos personagens: embalados em um constante clima de competição e de desentendimentos, o grupo era uma espécie de família desfuncional em que cada um compensava o defeito do outro;

didi fazia graça da cor de mussum, ao mesmo tempo em que questionava a masculinidade do dedé; por sua vez, didi era satirizado por ser cearense “da cabeça grande”; quando ria disso, zacarias acabava perdendo sua peruca e entrava em desespero, quase “saindo do personagem” infantil ao ser revelado calvo, enquanto mussum agia como o “tiozão do churrasco” fazendo graça de todo mundo, jogando cantadas para todos os lados e enchendo a cara de cachaça para conseguir levar as mazelas da vida;

assim, para cada arroubo de coragem desmensurada do grupo, zacarias era o freio; para os planos absurdos, dedé elaborava planos mais funcionais, com o pé no chão; quando ninguém tomava iniciativa, didi tomava a frente do grupo nas decisões, e quando a possibilidade de algo dar errado passava desapercebida pela maioria, mussum estava sempre alerta para assegurar que ninguém passasse o grupo para trás;

e é aí que temos um claro problema: como, por definição, as personagens de “os trapalhões” são planas (possuem apenas uma característica que “norteia” seus comportamentos), é fácil, em 2017, rotular cada um deles de acordo com o imperativo senso de “politicamente correto” que deflagrou-se de uns tempos para cá: assim sendo, didi seria um cara extremamente homofóbico, racista e misógino; mussum, um alcoólatra, claramente seria uma má influência para as crianças, além de também exercer um alto grau de homofobia e misoginia; zacarias, por outro lado, seria uma vítima das constantes piadas feitas à custa de seus trejeitos, aprisionando-o em um comportamento infantilóide que seria sua forma de se defender do bullying, ao passo em que dedé, um possível (e possível) “gay enrustido”, também seria uma vítima das constantes piadas acerca de seus trejeitos, forçando-o a manter uma postura heterossexual normativa para se encaixar na sociedade sem ser alvo de ofensas e preconceito;

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chega, né gente?

então, em tese…

em tese o remake vai decepcionar os fãs antigos – e digo isso enquanto fã do trabalho antigo dos caras;

mas calma, não me levem a mal: não compactuo com racismo, misoginia, homofobia, etc… o que quero dizer é que, à época em que “os trapalhões” era exibido na tv, os tempos e valores eram outros – daí o senso de humor do grupo ter se tornado uma espécie de tesouro do humor nacional;

a tempo: naquela época, a facilidade em distinguir uma piada de uma ofensa era uma experiência mais pessoal entre o espectador e o que era assistido, não havendo a necessidade de problematizar algo que culturalmente era aceito como piada (ainda que, sob a ótica de 2017, seja algo considerado ofensivo); o conceito chave aqui era interpretação: didi chamar mussum de “cromado” era apenas uma piada presenciada pelo espectador, que compreendia que didi não congregava dos valores do apartheid – afinal, a qualquer momento a mesa poderia virar e didi seria o alvo da vez, sendo chamado de “cearense”, “cabeça-chata” ou “cabecinha” – em alusão ao estereótipo dos cearenses terem a cabeça grande;

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pois bem, levando isso em conta, foi revelado que o “novo time” de comediantes irá reviver os personagens dentro do universo já estabelecido de “os trapalhões” (chupa essa, marvel!), com didi e dedé, únicos remanescentes do quarteto original, “ensinando” os novos trapalhões a serem… trapalhões;

sim, uma premissa bem bosta, convenhamos – mas, o que na tese parece ruim, pode ser ainda pior: como didi permaneceu na tv após o término de “os trapalhões” e estabeleceu um público infantil com “a turma do didi” (além dos incontáveis filmes da “franquia”), lentamente o personagem do malandrão ligeiro e quase malicioso foi desconstruído diante do público, tornando-o uma sopa rasa do que um dia foi – e é o que dizem: com muito tempo, todo personagem acaba virando uma caricatura de si mesmo;

assim, seria plausível esperar um didi mais contido em suas piadas, além de um dedé completamente blasé – afinal, se o personagem já era o mais “careta” do grupo, definitivamente não será agora que ele irá despirocar com humor negro;

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só com um bom mé para conseguir engolir esse remake!

então, a opinião…

acredito que a cultura de remakes é um claro sinal de que andamos desgastados… não há criatividade que resista aos atuais padrões de censura, ainda que velada, da cultura do “politicamente correto”: qualquer piada ofende; tudo deve ser escrutinado e problematizado; as leis devem ser consultadas em primeiro lugar antes de bolar um roteiro… e por aí vai;

precisamos falar sobre racismo, misoginia, homofobia e preconceitos? claro! mas será que precisamos problematizar “os trapalhões”? mesmo? em outras palavras: será que o novo “alto da compadecida” conseguiria ser escrito nos dias de hoje sem ser absolutamente linchado pela crítica?

mas ok, né? embora o programa ainda nem tenha sido exibido, já fico aqui os pés bem aterrados na decepção para não criar a mínima hype com o remake; fico só com o desgosto de saber que, em canções de funk, é possível trabalhar criminosamente com misoginia, cultura do estupro, pedofilia, homofobia, violência e apologia às drogas e ao crime de forma ESCANCARADA – mas, no tocante a uma esquete de 5 min. de “os trapalhões”, precisamos problematizar os personagens caricatos e inofensivos por representarem um claro retrocesso ao direito das minorias…

ok… vamos de café para tentar não surtar…

inmfc

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